sábado, outubro 07, 2006

Caminhávamos em direção a sua casa. O passeio, como outros, tinha servido para beber e conversar. Há cerca de um ano nos conhecíamos e vez por outra, um ou outro telefonava para um bate-papo ou convidando para o cinema. Vez por outra significa aqui a cada vinte ou mais, trinta dias entre um encontro e outro. Até aquela noite, quando caminhávamos em direção a casa dela, não sei dizer por que, não posso recordar agora, mas eu a tinha simplesmente como uma pessoa amiga, com quem eu gostava de conversar porque apesar de jovem como eu, era bem mais informada e se mostrava disposta a falar sobre boa parte de assuntos com certo distanciamento, sem considerações moralistas, por exemplo. Aprendi coisas da intimidade feminina numa de nossas saídas. Não, não na prática, preciso retificar o que eu disse: Flávia me contava experiências suas que contribuíam para o meu entender das mulheres. Às vezes, eu que me tinha por aberto a qualquer tema, me via surpreso com a naturalidade que Flávia falava de sua vida com os homens, que fique claro, sua vida íntima com os homens. Não demorou a eu contar certos fatos sobre mim que a outros ouvidos teriam caráter de relato sigiloso. Nossas saídas me serviam como terapia, eu começara a contar a ela minhas angústias e alguns de meus desejos. Sempre procurei estudar bem a correspondência entre o-que-dizer/para-quem-dizer. Com Flávia, isso não era assim, os critérios que me serviam para selecionar assuntos de conversa com outras pessoas, com Flávia se tornavam inválidos. Parecia que eu poderia contar tudo. Bom, digamos que muito a mais do que eu contaria aos demais amigos e conhecidos. Não lembro onde tínhamos ido naquela noite, mas tenho a impressão que nada de anormal se havia dado. Voltávamos do centro, isto sei, caminhando para a sua casa. Deveria ter sido uma noite de papo, cigarros, cervejas e só. Mas não. Assim que me despedi, na frente de sua casa, ela deu um passo portão adentro, eu do lado de fora do cercado. Ouvi meu nome. Flávia se voltou para mim, se aproximou e me pediu um beijo. Devo ter feito a melhor expressão de surpresa que se é possível fazer, e, sem pensar, sem dizer nada, fui ao encontro de sua boca.